Críticas
A Pintura do Mundo Flutuante
A primeira revelação a respeito de Thereza Stabel é a de que esta artista realiza sua obra, silenciosamente, há mais de 20 anos, sendo esta a sua primeira individual, fato raro no país, onde os artistas se lançam na aventura de expor, tão logo aprendem os primeiros traços. O fator determinante, porém, dessa mostra é o apuro técnico de suas aquarelas, apesar do tema pueril: flores, que um certo academismo banalizou por demais. Thereza, contudo, mostra toda a sua versatilidade mesclando a visão ocidental de aquarelar com estilos orientais – chineses e japoneses, técnicas milenares. No caso de Thereza Stabel há a presença do Ukyio-e, do final da Era Edo (século XIX) confundindo-se com o estilo Yamato-e, pintura japonesa que provém das técnicas chinesas da dinastia Sung.
O resultado é uma aquarela original na qual se percebe a opacidade de algumas áreas de cor para iluminar a área vizinha, produzindo um efeito de quase abstração, fato semelhante ao que aconteceu com os impressionistas. Esse abstracionismo proveniente do espargir de luminosidades no suporte é bem visível nos fundos quando a expressividade de Thereza supera o rigor da linguagem oriental do estilo Ukyio-e.
Na aquarela não há como remendar. Se erro houver há que se iniciar de novo, daí o rigor e o pintar pensado em cada gesto. Thereza consegue o jogo difícil de criar com fluidez, deixando espaços tênues, esgarçados, de cores esmaecidas, conviver com outras áreas onde a luminosidade emerge com graça e intensidade.
O tema de Thereza, flores, é mero pretexto para exibir sua técnica apurada aprendida com mestres chineses e japoneses no Brasil e na França. As melhores obras são aquelas nas quais se percebem as flores muito mais sugeridas do que representadas, onde a fluidez do traço e o esmaecer do colorido se fazem presentes.
Crítica escrita por ocasião da primeira exposição solo de Thereza Stabel, na Sala Nobre Centenário – São Paulo SP
...uma arte interior e vivida, intensamente elaborada...
Thereza Stabel apresenta, nesta exposição no Paulistano, um naipe expressivo de telas e aquarelas da melhor qualidade, sempre em técnica apurada, aprendida de mestres japoneses e chineses.
É uma arte interior e vivida, intensamente elaborada, como um iluminista medieval ou um impressionista mágico dos primórdios da arte moderna.
Retrata flores, flores, flores, flores que vêm do mundo velho, lá de fora, e certamente de sua inspiração interior, da práxis, quiçá de sua alma lírica e delicada, formada na sua infância alegre do Sul.
Thereza vem e expõe para tocar os sentidos do público, o telúrico da vida globalizada de hoje, o carinho, o afeto, o amor de todas as coisas que não se perdeu, ainda.
Coerência sem ligações com vanguardismos tão incensados pela chamada grande imprensa
Esta é uma artista que evolui com coerência e não está ligada aos modismos de vanguardice, tão incensados pela chamada grande imprensa brasileira.
Ela poderia viver cercada pelas maravilhas dos jardins públicos e privados da estupenda serra gaúcha, porque é oriunda do Rio Grande do Sul, onde nasceu. Quem já viu as flores de Gramado ou Canela, cidades sulistas, sabe porque estou eufórico.
Mas, Thereza preferiu vir para São Paulo, onde vive há mais de 40 anos. A coerência estética que assinalo em sua obra, começa nas primeiras aulas que ela freqüentou, quando decidiu pintar sobre porcelana, arte nobre, antiga, aristocrática. Isso nos anos 70.
Nos anos 80, Stabel foi para a França estudar aquarela e tratou de mostrar o que fazia nos seletos salões internacionais de Portugal, Holanda, França, Estados Unidos.
Sua rotina atual, iniciada há uma década, é comprar flores no Ceasa, acordando cedinho. É lá que está — viva — a sua matéria prima. Há cinco anos a artista fez sua primeira mostra individual. Os cuidados dela com a aquarela levam-na a trazer tintas e pinceis do exterior, usar apenas água fervida e papéis antifungo. Profissionalismo desse quilate resulta na beleza das flores produzidas.
O difícil jogo de criar com fluidez
"Esta é uma artista que evolui com coerência e não está ligada aos modismos de vanguardice, tão incensados pela chamada grande imprensa brasileira" escreveu o crítico Olney Krüse, analisando a obra de Thereza Stabel, então em exposição no C.A. Paulistano.
Fazem parte do currículo de Thereza a participação em numerosas exposições no Brasil e também em outros países, como as da Accademia Internazionale D'Arte Moderna, Roma; Exposición de la Société des Artistes Independants, no Grand Palais em Paris; Salon Arts et Couleurs, Tionville, França; Galeria Dela Camera di Comercio, Luca, Itália; First Brazilian Art Exhibition, Tampa, Florida; Brasil-Holanda Show, no World Trade Center de Amsterdan, Holanda; Exposição Brasil-Portugal, em Lisboa; Exposição Individual na Montserrat Art Gallery, New York.
Em seu atelier, num pequeno prédio charmoso da rua Melo Alves, Thereza dá aulas e mantém a sua galeria permanente. A aquarela é predominante em seu trabalho, mas um dos pontos de destaque são os quadros em óleo ou acrílico aquarelado.
Thereza costuma lembrar que é muito difícil pintar uma aquarela. "Na aquarela não se fazem correções — ela lembra. O que se pinta, está pintado. A secagem é extremamente rápida. Se você aplica novas cores sobre uma área já pintada que ainda não está seca, há o risco muito sério de que se criem efeitos indesejados. Em outras palavras: a pintura tem que fluir com mais liberdade, com mais espontaneidade. O exercício contínuo de uma técnica com essas características, como que solta a pessoa, e ao trabalhar com outros materiais, ela é levada naturalmente a ser muito menos rígida e detalhista, conduzindo-a a resultados que acabam sendo considerados mais leves, mais transparentes."
A propósito dessa característica, Alberto Beuttenmüller, da Associação Internacional de Críticos de Arte (Paris), destacou que "Thereza consegue o jogo difícil de criar com fluidez, deixando espaços tênues, esgarçados, de cores esmaecidas, conviver com outras áreas onde a luminosidade emerge com graça e intensidade"